Itaú Cultural vai muito além do masculino e feminino na mostra “Todos os Gêneros”

O Itaú Cultural em São Paulo dá uma forcinha na missão de expandir a compreensão da sexualidade e prepara uma programação de 9 dias que inclui teatro, cinema, debates e show, para adultos e crianças

por Marcio Caparica

Tem teatro? Tem. E música? Tem. Cinema? Siiiim. Debate? Tem também. Entre os dias 25 de junho e 3 de julho, o Itaú Cultural vai abrigar a terceira edição da Todos os gêneros – Mostra de Arte e Diversidade. Durante nove dias, os paulistanos vão poder conferir – gratuitamente! – a ampla gama de gênero se expressar através da arte.

A programação de teatro traz as peças Luiz Antonio – Gabriela, que narra a transformação do irmão mais velho do diretor  Nelson Baskerville na travesti Gabriela; Joelma, sobre uma mulher que fez a transição de sexo após 30 anos de inadequação e torna-se uma líder espirital; O homossexual ou a dificuldade de se expressar, que conta o que acontece com duas joves que são exiladas na Sibéria, rodeadas por lobos, neve e um misterioso vírus, como castigo por terem mudado de sexo; e Noite bizarra, recalcada e bipolar, “performance-cabeção, bate-cabelo nervoso” com cabaré, talk-show e música, em homenagem à nossa primeira-dama interina tão bela, recatada e do lar.

A Mostra ainda conta com um show do paraense Jaloo, mesas de debate promovidas pelo coletivo SSEX BBOX e atividades para crianças (e toda sua família) durante o fim de semana. A atriz cubana Phedra de Córdoba estava programada para participar do evento, mas infelizmente morreu em abril desse ano. Confira a seguir a entrevista que Galiana Brasil, gerente do núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, concedeu ao LADO BI por e-mail.

LADO BI A programação da mostra Todos os gêneros faz um esforço claro para explorar questões sobre sexualidde que vão além da compreensão mainstream, abordando a transexualidade e identidades de gênero não-binárias e genderqueer. Por que o Itaú Cultural decidiu abordar essa questão agora?

GALIANA BRASIL A mostra está na terceira edição, então essa pauta, de forma mais matricial, já está sendo tratada desde a primeira. Também é necessário observar que essas questões estão presentes em boa parte da nossa programação cultural em suas diversas linguagens de expressão – teatro, dança, literatura, audiovisual –  tanto nos espaços e equipamentos culturais, quanto no site, publicações, e em diversos projetos em que firmamos parceria através do Rumos Itaú Cultural, o principal programa de fomento e apoio à arte e cultura brasileiras.

A mostra de cinema traz exclusivamente obras criadas por brasileiros, e em sua maioria rodadas no Brasil. Isso foi intencional? O que os curadores consideram que há de particular no cinema queer brasileiro? A instituição tem algum programa para estimular a produção desse tipo de cinema no país?

A priorização da arte nacional é uma diretriz que norteia toda a ação do Itaú Cultural. Mais do que nas particularidades, a curadoria se pautou na busca da diversidade, pois ainda há concentrações mesmo dentro desse universo. Polifonia e diversidade geográfica foi um dos motes. A curadoria fez um trabalho profundo de busca de filmes com essa temática. Para chegar a esse recorte, foram vistos mais de 80 filmes em busca de vozes ainda pouco ouvidas dentro dessa temática, pois, mesmo nos discursos e produções criativas da dita diversidade, lidamos com monopólios e concentrações. Não foi fácil, por exemplo, encontrar filmes com protagonismo de mulheres – trans ou lésbicas –, assim como animações, filmes voltados para o público infantil. Por fim, emergiu esse leque audiovisual da diversidade em máxima potência: nos gêneros, estilos (documentário, ficção), territórios de origem (centro, periferia), cineastas, personagens, temáticas, considerando também questões raciais, como se encontra em KBELA.

Qual seria a participação de Phedra de Córdoba na Mostra? Como sua presença ainda se reflete no evento desse ano?

Desde o início do processo curatorial pensamos na participação da Phedra. Ela materializa muito da mostra, das narrativas da programação. Se pensarmos no Luiz Antonio Gabriela, por exemplo, ou mesmo em diversas personagens do Copi (dramaturgo argentino bastante presente na programação). A ideia era fazer um “Camarim em Cena” com ela (projeto nosso que se utiliza da metáfora do espaço sagrado do camarim para dar a ver ao público o processo de criação, memória, de atores e atrizes das artes cênicas).

Há toda uma parte da programação dedicada às crianças. O que você responderia para aqueles que dirão que sexualidade e identidade de gênero são questões para adultos?

Questões nada consensuais, ou mesmo polêmicas como as de gênero e/ou identidade, podem ser apresentadas às crianças, desde que se respeite limitações etárias como se faz para todas as questões tratadas com esse público. Em uma mostra em que a matéria é “Arte e Diversidade”, a questão se desloca do tema e vai para o “como”. “Como falar sobre isso com crianças?” Essa foi a questão. Daí nos valemos da literatura, do jogo dramático, de uma oficina como a de bordado, por exemplo. Ludicidade e suavidade, essa foi a chave. Excluir o peso e a culpa, que, esses sim, deveriam estar restritos ao universo dos adultos.

Dado o público que costuma frequentar o Itaú Cultural, especialmente em São Paulo, vocês não estariam já falando com um público que em grande parte já dispõe desse tipo de informação? Há iniciativas para educar outros públicos sem acesso a informações que reduzem a intolerância?

A “informação”, apenas, não dá conta dos conflitos de gênero no mundo contemporâneo. Não à toa, os sítios com mais informação são também campeões em episódios de intolerância e violência de toda ordem. Essa mostra é uma ação centrada no Itaú Cultural, enquanto território de pouso, mas ela está conectada e em diálogo com “vários Brasis”, é polifônica, polissêmica. É uma tentativa-ação de interferir em um cenário ainda marcado pela desigualdade, ignorância, incompreensão e, nesse contexto, nossa expectativa é mais a de afetar e promover encontros, muitas vezes pela do estranhamento mesmo.

Há planos para que a mostra se repita em outros lugares do país e nos anos seguintes?

A ideia é que seja realizada anualmente no Itaú Cultural. Até o momento não há intenção de realizá-la fora de São Paulo.

Serviço

Todos os Gêneros

De 25 de junho a 3 de julho de 2016

Instituto Itaú Cultural Avenida Paulista, 149 Bela Vista – Centro São Paulo (11) 2168-1700

Confira a programação completa

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